Aquela meia hora até chegar o INEM durou uma eternidade. Passaram duas ambulâncias antes da “minha” (parece que mais gente se solidarizou comigo naquele dia e naquele percurso), chegou a PSP (cavalheiros, muito cuidadosos, atentos e pacientes) e aturámos centenas de mirones. Sim, é esse o termo, “aturar”. Fiquei incrédula quando vi a quantidade de automobilistas cuja curiosidade mórbida se sobrepõe ao bom senso. Há que abrandar o carro ao ponto de quase estacionar em cima do acidente, olhar bem para o veículo desfeito e tecer comentários, olhar melhor ainda para a pessoa acidentada e ver se tem sangue (de preferência muito, para valer a pena o espectáculo gratuito!) e depois seguir m-u-i-t-o-d-e-v-a-g-a-r a olhar pelo retrovisor. Não os preocupa se atrasam meio mundo ou se causam outro acidente. O seu apetite doentio pela desgraça alheia sobrepõe-se a tudo. No entanto, os simples automobilistas, não são os únicos sanguessugas de azares que não são seus. A televisão (a TVI, mais precisamente) lá esteve. Parou em cima do acontecimento, escrutinou tudo ao ínfimo pormenor, percebeu a ausência de sangue abundante e, sem um bom dia ou boa tarde, seguiram caminho para o acidente mais próximo (que os havia, infelizmente, naquele dia). Já o repórter de trânsito da Rádio Festival (faça-se a publicidade merecida) parou, perguntou se a ajuda era necessária, fez a reportagem e, pelo que sei de quem lá ficou depois de me levarem para o hospital, ainda ajudou a arrastar o carro desfeito para a berma da estrada e ajudou a polícia e os envolvidos no acidente a varrer o chão recheado de restos do acidente. Sim, porque ainda há quem seja profissional e simultaneamente não abandone o seu lado humano e o seu discernimento prudente.
Chegou finalmente o INEM. Ali estava eu de pé, inteirinha, mas a precisar de ser diagnosticada por um médico. Estabilizaram-me, fizeram-me todos os testes possíveis no local, muitas perguntas e… aí vamos nós para o hospital.
À chegada fui recebida com uma pérola por parte do maqueiro de serviço:
- “É por estas e por outras que as mulheres ao volante são um perigo constante!”
- (Ahhh? Hummm?! Oiii?) “Sim, sim, eu também costumo brincar com esse dito popular!”
- “Não estou a brincar ó dona!” - (o que eu ODEIO que me tratem por “ó dona”!) – “Devia ser proibido deixar uma mulher conduzir.”
- (cheia de vontade de descer do salto) “Sabe, se eu não fosse mulher, se não guiasse com cuidado, se não fosse a 60kms/h numa via rápida na qual desmaiei a conduzir, não estaria aqui a falar consigo. Se fosse homem estaria agora a entrar na morgue, mas orgulhoso de o ser e de ser herói do asfalto!”.
Não conseguia ver a cara do senhor maqueiro, estava completamente imobilizada e só via “em túnel” para o tecto, mas gostava de o ter visto. Gostava mesmo. Por segundos fez-se silêncio, o senhor em questão calou-se e o médico do INEM começou a rir-se e a dar-me razão. Tenho tendência nestas situações para fazer filmes mentais. Imaginei o senhor maqueiro, ao estilo Rainha Má da Branca de Neve, a dizer algo em surdina como:
- “Pénis, pénis meu, existirá macho mais idiota que eu?”
Ri-me sozinha e deixei esse exemplar masculino para trás. Estava finalmente entregue a médicos e enfermeiros que me faziam perguntas e mais perguntas, que me esmiuçavam e me encaminhavam para exames e mais exames, TAC’s, Raios-X, electrocardiogramas, análises e tudo aquilo que tinha, por segurança, direito.
Enquanto eu fazia os exames e o meu marido não chegava, entretinha-me com os meus pensamentos e a minha visão “em túnel” de tectos hospitalares. Pensava que à pergunta do exemplar macho da Rainha Má, a resposta era “sim!”. Sim, há machos mais idiotas que aquele. Muitos, muitos. Não há estatísticas que consigam derrubar preconceitos enraizados socialmente, desde que o carro se conhece como tal. Já os carros puxados por cavalos eram, quase na totalidade, orientados por homens. Até os coches que levavam as princesas em tempos antigos eram guiados por varões. As charretes e carroças que transportavam a plebe, também. Muita barba, muita maçã de Adão, muita testosterona, muito músculo. Assim é que era, assim é que, segundo os puristas sociais, deveria continuar a ser.
Lamento, mas aqui a mulher, neste caso, não gostaria de ter um pénis. E cá estou para combater fundamentalismos sexistas, pacificamente, à minha maneira. Adoro conduzir. Faço-o desde os meus 18 anos, há 18 anos precisamente, sem um único acidente no curriculum vitae da condução. E penso que, não fosse ter perdido os sentidos por razões que não controlei, continuaria incólume o meu percurso.
O meu marido entretanto chegou, um metro e oitenta e três de chão, que me ajuda a andar e a seguir com um sorriso a minha vida. Exames feitos, tudo óptimo, entre amassadelas, pisaduras e nódoas negras que passaram em 15 dias. Estou (quase) como nova e (quase) pronta para outra. O hospital ficou para trás, o receio de voltar à estrada nem tanto. Por muito que goste da condução ainda fico sobressaltada indo “à pendura” com outra pessoa a conduzir. Sinto-me a pôr constantemente o pé no meu travão imaginário e sou uma companhia-melga, sempre a dizer “Cuidado!”, com isto ou com aquilo. Enfim…
Vou no entanto hoje buscar o meu “sapinho”. Sim, um “sapinho”, daqueles que têm quatro rodas, cinco mudanças e muita vontade de ir comigo para o asfalto. O meu novo carro é verde e, quando lhe der beijinhos, transformar-se-á num príncipe, cavaleiro-andante com não sei quantos cavalos, que me levará de agora em diante por esse reino fora. E não haverá maqueiros–machos-rainhas-más que me tirem a vontade de o fazer.
(wish me luck!)


bem, realmente respondeste à letra ao senhor ehehehe tb gostava de ter visto a cara dele ;)
ResponderEliminartomei uma decisao ao ler o teu texto! neste novo ano hei-de finalmente perder o medo de conduzir!! se tu consegues, eu tb consigo!! :)
beijocas gordas e tudo de bom neste novo ano k bem mereces, mais do k ng!! :) tens sido uma AMIGA, mesmo!
Mas já tens carta Aninha? Se tiveres vais levar comigo a dar-te na tola todas as semanas! Precisas dessa independência!
ResponderEliminarSe ainda não tiveres, segunda-feira é o dia de te inscreveres numa escola de condução!
:D
Segunda ou Terça pomos a conversa em dia. ;))
É assim mesmo, como eu gosto de mulheres com um M bem GRANDE!
ResponderEliminarJocas sapudas ;)