Assim foi, pés a caminho, que a vida não pára nem espera pacientemente por nós. Podia fazê-lo, mas tirar-lhe-ia o sal e a pimenta, todo aquele tempero que nos faz rir ou chorar. Às vezes uma máquina do tempo faria jeito para rebobinar uns segundos, acelerar um pouco, ou fazer uma pausa. Voltar atrás numa decisão mal ponderada e avançar um encontro com alguém que não desejamos. Ou então, simplesmente, aproveitar as coisas boas da vida, suspendendo pelo tempo desejado aquele beijo inesquecível, ou tornar ainda mais demorado o abraço que já era longo. Uma vez mais seria útil ter um pénis, consta que os homens são mais engenhocas e capazes de invenções com porcas e parafusos e esquemas e orientações do estilo 1+1=2. Não vejo mulheres a ler as instruções de um aparelho eléctrico, a não ser que haja alguma dúvida específica e seja necessário consultar aquele parágrafo em particular. Somos mais práticas e despachadas, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Somos capazes de fazer dez coisas em simultâneo e todas, mas mesmo todas, ficarem razoavelmente bem feitas.
Ter-me-ia dado muito jeito essa máquina do tempo há uns dias atrás. Imenso.
Acabada de sair do médico com a má notícia “na mão”, entrei no carro e resolvi ocupar a cabeça com coisas práticas: vidinha do dia-a-dia e trabalho. Os pensamentos sucediam-se em catadupa ao estilo pescadinha-de-rabo-na-boca, indo invariavelmente bater na mesma tecla: gravidez (ou ausência dela). Pensava nas noites mal dormidas dessa semana, pensava na confusão que me esperava na escola onde dou aulas por ter deixado tudo em suspenso na semana anterior, pensava na tristeza que sentia e nas lágrimas derramadas, pensava nas centenas de testes por corrigir, pensava no sorriso do meu filho e na força que este me dá, pensava no sorriso do outro bebé que nunca cheguei a ver, pensava nas reuniões que tinha que preparar, pensava no desconforto hormonal e na instabilidade emocional que sentia, pensava em como tudo isto era invisível aos olhos de todos, pensava nos alunos que me contactavam insistentemente para tirar dúvidas disto e daquilo, pensava no quanto gosto do trabalho que faço, pensava que as férias de Natal estavam quase, quase a chegar e poderia, finalmente, descansar. A caminho da escola pensava, pensava, pensava, até que deixei de o fazer. Involuntariamente. O impensável aconteceu em segundos: em plena via rápida perdi os sentidos e bati contra um camião de reboque. Ou melhor, entrei pelo reboque adentro. Enfaixei-me num monte de ferro andante e desfiz o carro.
Nesse momento a capacidade de rebobinar o tempo seria providencial. Nunca teria sequer metido a primeira mudança e andado mais que 5 metros. Teria pedido uma boleia directa a casa ou, melhor, teria ido a pé e arejado as ideias.
Tudo aconteceu no entanto, e dentro das circunstâncias, em modo milagre. Ia com muita calma, devagar para o percurso em causa, a cerca de sessenta kms/hora. Ia direitinha atrás do tal camião, a uma distância de segurança grande. Quem ia atrás de mim, estava com os mesmos cuidados. Desmaiei e, segundo me disseram os condutores do carro que me seguia, acelerei de repente. O meu pé deve ter pousado com mais pressão no acelerador. E lá fui eu, em linha recta, espetar-me no tal monte de ferro. Lembro-me de ter entreaberto os olhos um instante antes do embate, e de ainda ter tido tempo de pisar o travão. Tarde, muito tarde. Num segundo tinha o meu Opel Agila azul desfeito, via airbags por todo o lado e muito fumo. Preocupava-me naquele momento, e só, com uma coisa: encontrar o meu telemóvel e chamar o meu marido. Chorava e procurava o dito aparelho. Precisava da “minha metade” do meu lado, nada mais me importava. De repente, do lado de fora, apareceram pessoas que batiam com força nos vidros e me pediam para abrir a porta. Percebi nesse momento que as portas não abriam e que estava fechada lá dentro, no meio do nevoeiro provocado pelos airbags, sem conseguir sair. Dois senhores do lado de fora gritavam e preparavam-se para partir os vidros de trás e me tirar dali. De repente o sistema eléctrico do carro funcionou de novo e consegui soltar-me. Saí do carro pelo meu próprio pé, aparentemente com nada mais do que uma queimadura de abrasão, provocada pelo cinto de segurança, e o corpo dorido.
Primeira pergunta do casal que ia no carro atrás de mim, mal cheguei à berma da estrada:
-“Está grávida?”
(o que eu queria ter um pénis naquele momento, a um homem ninguém pergunta tal coisa…)
-“Não, já não estou…”
Começou a chover copiosamente nesse momento, a substituir a chuvinha molha-tolos que antes caía. Parecia que o tempo se solidarizava comigo e entrava em dilúvio em simultâneo.
-“Não, já não estou grávida, estava na semana passada, mas já não estou… não estou.”
Dizia alto que não estava, mas todas as minhas hormonas diziam ainda que sim. A minha cabeça dizia que sim. O meu útero dizia que sim. A minha alma dizia que sim. Só a minha boca se atrevia a proferir a realidade, todo o resto do meu corpo ainda estava em negação.
Enquanto ouvia a senhora desse casal a dizer “Por um lado ainda bem que não está, com a violência do acidente teria perdido o bebé”, percebia que alguém chamava o INEM, que outro alguém orientava o trânsito que imediatamente tinha ficado congestionado, e que o condutor do camião me esticava o seu telefone e dizia: “Ligue ao seu marido!”. Ficarei eternamente agradecida aquelas pessoas, mas principalmente ao condutor do camião cuja traseira desfiz. Incansavelmente me perguntava se estava bem, se precisava de algo, abrigava-me com um guarda-chuva, ia buscar os meus pertences no meio da chapa desfeita. Falei com o meu marido que, saído do trabalho a voar, em vinte minutos estava ao meu lado. Finalmente sentia um pouco de paz e segurança. Sentir a pessoa que amamos ao nosso lado é ter chão, finalmente, por baixo dos pés.
(continua)

ao ler-te senti um aperto no coraçao...felizmente escapaste desta!...beijinhos!
ResponderEliminarEstou em modo de catárse, preciso de deitar tudo isto cá para fora... mas ainda sinto um aperto no coração e arrepios no corpo todo sempre que falo do assunto.
ResponderEliminarMas estou aqui direitinha, não é? :D
Vamos mas é estar juntas um destes dias e celebrar! ;)))
Fico feliz por estares inteirinha, por te ouvir a voz, por ver o teu sorriso. Quero deixar bem claro que pretendo usufruir da tua companhia, sorriso, voz e afins por muito, muito tempo e não me assutes assim!!
ResponderEliminarAQDS!