E assim começa...
Um certo dia de manhã cedo, muito cedo. Uma noite mal dormida, aliás, não dormida. Uma gravidez que não seguiu em frente e as hormonas ainda aprisionadas aos pulos dentro do corpo. A alma espartilhada no útero e escondida do mundo. Uma vontade imensa de, pela primeira vez na vida, não ser mulher.
Hoje queria ter um pénis. Muito. Quem tem um pénis não sabe o que isto é. Sente também a emoção, o desnorte e o desespero de um aborto que toca aos dois. À mulher e ao homem. Ao casal que intensamente desejou aquele pequeno embrião que já se formava e desenvolvia. Sim, toca aos dois, mas só consome um. Devora a mulher que, vazia, sente o corpo ainda cheio de tudo: do amor, da raiva, dos desejos, do oco, da paixão, da chama que se apagou. Do tudo e do nada. Do raio do nada.
Pés a caminho rua fora, sem o pénis, e a vestir uma vergonha sem razão de ser. Sim, vergonha. Inconscientemente (ou talvez não) a desonra social ali está. As pessoas perguntam-me: “então, e a gravidez?” e aqueles que não a sabiam “para quando mais um bebé?”. Ohhh ‘pa, silêncio! Shiuuuuuuuu! Calou. Seremos mesmo obrigados a fazer conversa que melindra? Isso é como o “estás mais magra!”, ou o “estás mais gorda” velado e dito em silêncio com o olhar que perscruta o corpo alheio. Futilidades como “que linda a cor do teu verniz das unhas” dito em voz alta versus “já pintavas as unhas, mas não te digo nada porque não me ficaria bem, mas não penses que vou dizer bem de ti à amiga… e já pintavas as raízes do cabelo também”. Apre! Apre três vezes e com rezas anti-mau-olhado à mistura. E lá tenho eu que, entre sorrisos amarelos, dizer suavemente que “fica para a próxima”, “há que não desistir”, “enquanto há vida à esperança”, e por aí fora. Apre, apre, apre!
Que vontade de mandar a maioria dessas pessoas para o pénis-mais-velho, como um homem pode dizer sem ser julgado. Já a uma mulher fica mal (pois fica, e a um homem também, por sinal) e nada de praguejar injúrias menos próprias. Está bem. Isso até o faço, não me custa, embora a vontade de o fazer por vezes quase, quase, quase, mas mesmo quase, se sobreponha à minha educação.
Adiante. Pés a caminho outra vez. Rua fora. Cabelo apanhado, fragrância Chanel nº5 e sorriso simpático nº 7. Sem pénis, alma estilhaçada, mas cabeça erguida. Sempre. Como uma Mulher com M grande sabe, eternamente, fazer como ninguém.

Uma Mulher com M grande, sem qualquer sombra de dúvida !
ResponderEliminarUm beijo enorme minha querida, e MUITA força, muita energia positiva, que os teus sonhos deixem de ser sonhos e sejam reais.
Minha querida Cláudinha.....há muito que aprendi que viver não é nada fácil.Mas também aprendi, que se fosse tudo fácil nesta vida, viver seria fácil demais e, provavelmente seria uma grande seca. O ser humano não teria motivos para aprender, para aprecisar as coisas boas da vida, nem para sorrir com as coisas simples. Como seríamos nós capazes de nos enternecer com a gargalhada de uma criança, se não soubessemos que há tantas que choram?
ResponderEliminarA vida é estranha, é dificil, por vezes insuportavelmente dura e fria, injusta, seca e implacavel. Mas é a única que temos. Ou pelo menos é a única de que nos lembramos.
Se temos forçasamente que seguir em frente, porque a isso estamos destinados, então que seja tentando sorrir ao máximo, de cabeça bem levantada e determinação para não pensarmos muito nas pedras do nosso caminho que nos fazem caír.
Fico feliz por teres voltado a escrever.
Vou estar aqui todos os dias para te ler. Assim estarás mais perto de mim.
Minha querida, sorri...sorri muito, porque tens um menino lindo ao teu lado que precisa de te ver a sorrir.
FELIZ NATAL MEUS QUERIDOS
Um xi-coração muito, muito apertado em ti! Estou aqui se precisares! Beijo!
ResponderEliminarnão é fácil aquilo por que estás a passar, querida...mas é como tu dizes, cabeça levantada e adiante! tenho uma amiga que dizia sempre "para a frente é que é o caminho!" e é verdade, tu vais conseguir lidar com aquilo que a vida te trouxer...como uma mulher com M grande que és!! beijinhos!
ResponderEliminarO ar está pejado de "clichés" e lugares-comuns que nos permitem fugas "confortáveis" face às contrariedades de outrém. As perguntas da "prache" também ocupam desnecessariamente outras tantas moléculas de oxigénio que poderiam apenas ser usadas para fins metabólicos. Só cada um sabe o que sente perante tal panóplia de expressões e questões que substituem o vazio do diálogo que temos realmente se as não usarmos.
ResponderEliminarMas tu, minha Mulher, minha Companheira, minha Amiga, minha Cúmplice, digo-te desde já que prefiro que não tenhas pénis! Adoro o facto de seres a Mulher que és, a Pessoa que és, o meu horizonte... deste letras e formaste palavras em torno dum assunto, dum sentimento, que para mim seria impronunciável, entendido apenas nas nossas trocas de olhares. Admiro-te muito!
AQDS!
Uma MULHER como poucas!! Força amiga!! Tenho tanto orgulho em ti... :*
ResponderEliminarObrigada minhas queridas, as vossas palavras ajudam-me muito, nem imaginam o quanto...
ResponderEliminarQuanto a ti "Sr. Anónimo", já aí vou dar-te um beijo. Luv u.